Comunhão: desequilíbrio hormonal e psicopatia vão à missa

O subgênero dos filmes slasher ainda era um filão a ser devidamente descoberto e explorado (à exaustão) quando o estadunidense Alfred Sole – egresso do cinema adulto – dirigiu o longa-metragem de terror Communion, em 1976. Nele estão presentes vários elementos identificados aos sempre populares filmes de matança: facas afiadas, máscara, mortes chocantes e mistério acerca da identidade do criminoso. Embora seja muitíssimo bem realizado e com todo o potencial de clássico, sua sobrevida em parte pode ser atribuída a uma feliz casualidade: a presença em cena de uma das mais promissoras e populares estrelas do cinema oitentista: Brooke Shields.

O repentino sucesso da jovem estrela no polêmico Menina Bonita (1978), de Louis Malle, impulsionou o relançamento do filme de Sole naquele ano, quando recebeu seu título mais conhecido: Alice, Sweet Alice, porém mantendo o corte original. Com o êxito explosivo a seguir do romance adolescente A Lagoa Azul (1980), o filme teve um novo lançamento, dessa vez sob o título de Holy Terror, com algumas alterações na montagem. Em todo o mundo, diversas edições para home vídeo, desde o VHS até os lançamentos mais recentes em Blu-ray, exploram a presença de Shields no filme, muitas vezes dando a entender que ela é a protagonista. A verdade é que, independentemente da particularidade de trazer um dos rostos mais icônicos dos anos 1980 em seu primeiro papel para o cinema, Comunhão conquistou fãs devotos e a condição de filme de culto. Talvez por sua estranheza intrínseca ao estabelecer no contexto das missas tridentinas a narrativa de uma pré-adolescente lidando ao seu modo com a hostilidade do mundo ao redor, pela reviravolta à maneira de Inverno de Sangue em Veneza (1973) ou pela irresistível e controversa metáfora da puberdade como combustível para um comportamento irascível, o fato é que Comunhão é um dos títulos mais instigantes da leva de produções inaugurais de filmes de matança nos anos 1970.

A primeira cena já estabelece a dinâmica familiar: Catherine Spages (Linda Miller), uma mãe solo, e suas filhas Alice (Paula E. Sheppard, a verdadeira protagonista do filme, interpretando uma pré-adolescente, mas que no período das filmagens já tinha 18 anos de idade) e Karen (Brooke Shields) vão visitar o padre Tom (Rudolph Willrich), com quem têm uma relação próxima e muito afetuosa. Fica evidente que Karen, a filha caçula, é demasiado bem-comportada, graciosa… demasiado perfeita, por isso é a preferida da mãe e do padre Tom, que lhe oferece presentes enquanto Alice se detém observando as imagens católicas e perambulando sozinha pelo lugar. Sua primeira e única fala na cena é um pedido para ir ao banheiro, uma deixa para que a menina saia daquele cômodo em que não é bem quista, mas também uma pista de que provavelmente Alice já teve a sua primeira menstruação. Ao voltar para a sala, depois de ser repreendida pela mãe por andar pela casa sem permissão, lhe é pedido que se sente quieta e se comporte como uma mocinha. Mais adiante, Catherine afirma que não sabia da primeira menstruação da filha, porém, nesse momento, fica explícito que a puberdade para Alice é uma condição compulsória: ela não cabe mais naquele papel de criança pura e virginal, agora ocupado exclusivamente por sua irmã mais nova, e precisa agir conforme o que se espera dela.

Ainda que o tema da menstruação seja evocado aqui apenas de maneira superficial, é praticamente impossível não lembrar da íntima relação do cinema de horror com o sangue menstrual, analisada com profundidade por Barbara Creed em seu livro The Monstrous Feminine. A autora trabalha o conceito de abjeto de Julia Kristeva para explicar filmes que exploram a puberdade como elemento de horror, tais quais O Exorcista (1973) e Carrie, a Estranha (1976). Uma das possibilidades de intepretação que Creed apresenta – e provavelmente a mais evidente delas – é a do sangue menstrual como elemento de abjeção por sua associação natural com os excrementos do corpo e o desejo materno de “limpeza”, uma contraposição entre as áreas sujas e limpas do corpo. O objetivo de Alice, do início ao final do filme, é poder comungar, receber a hóstia como os outros cristãos, mas, por ser considerada impura, ela é sempre privada desse momento, enquanto sua irmã Karen se prepara para receber a primeira comunhão com a pompa tradicional desta celebração religiosa.

Karen, porém, é brutalmente assassinada antes de sua primeira comunhão, colocada dentro de um baú em chamas na igreja. A morte da menina causa uma imensa comoção na família e em todos os presentes, exceto em Alice. Sua indiferença à tragédia, associada a uma segunda tentativa de assassinato na família, fazem com que as suspeitas recaiam sobre ela. Imediatamente, Alice é enviada a um abrigo de crianças para que fique sob supervisão psicológica. Um segundo assassinato na família, desta vez consumado, sugere que Alice não é responsável pelas mortes, já que estava internada no abrigo no momento do crime. A menina é, então, liberada, mas as consequências da puberdade continuam a se manifestar na forma de homens mais velhos que tentam tocá-la ou fazer comentários maliciosos sobre o seu corpo – o verdadeiro horror das mulheres. É neste momento em que somos apresentados a um segundo perfil, o da mãe monstruosa, figura central em diversos clássicos do horror, cuja perversidade é sedimentada em um comportamento possessivo e dominante em relação aos seus filhos, em especial às crianças do sexo masculino. O filme que consagrou e virou referência deste tema sem dúvidas foi Psicose (1960), mas em Comunhão a inspiração provavelmente veio por via de Prelúdio para Matar (1975), o impressionante giallo de Dario Argento com o qual o filme de Alfred Sole compartilha diversas outras semelhanças temáticas e estilísticas.

A Sra. Tredoni (Mildred Clinton) é uma mulher de uns 60 anos de idade cuja função é limpar a residência dos padres, preparar suas refeições e, acredita ela, mantê-los na linha, focados no objetivo de servir a Jesus Cristo. Por isso, a Sra. Tredoni considera sua missão de vida eliminar quaisquer distrações que afastem os homens de Deus de seus propósitos sagrados. É interessante pensar como a questão hormonal também se insere neste caso. Alice e a Sra. Tredoni são opostas e complementares. Enquanto a primeira delas está iniciando seu ciclo hormonal, a Sra. Tredoni está no fim desse ciclo, o que geraria nela um sentimento de inveja e descontrole, bem como a necessidade de ter para si algo para cuidar e ultra proteger, alguma coisa que preserve o seu sentido de existência e utilidade no mundo, já que revela ter perdido a sua própria filha no dia de sua primeira comunhão, décadas antes. Ao lado da roteirista de primeira – e única – viagem Rosemary Ritvo, o corroterista e diretor de carreira breve Alfred Sole faz aqui uma verdadeira pérola dos anos 1970 – ambientada no início dos anos 1960 –, um filme de matança com doses de melodrama e observação ácida aos costumes da igreja, uma crítica pontuada pela passividade evocada pelas imagens sacras, frequentemente em evidência. Absolutamente perturbador e pessimista, insinua que, dessa vez, Alice não foi responsável pelos assassinatos, mas sugere que a menina, claramente sociopata, seja uma psicopata em formação. Resgatado de um possível e injusto esquecimento pela presença de uma estrela em formação, a obra mais importante de Alfred Sole se tornou perene e renovada com o passar do tempo, consagrando-se como um dos mais icônicos exemplares de suspense e horror de sua época.

Texto escrito em outubro de 2022 para o livreto Slashers lançado pela Versátil Home Video.

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