Pelo menos desde o início dos anos 2000, o cinema sul-coreano goza de uma excelente receptividade no Brasil, passando pelas obras de Kim Ki-duk, que nunca fora uma unanimidade, mas sempre esteve em pauta, ao cinema cultuado de Sang-soo Hong. No cinema de horror não é diferente. Diversos talentos surgem a cada ano e filmes como Oldboy (2003), de Park Chan-Wook, e Eu vi o Diabo (2010), de Jee-woon Kim, já são celebrados como clássicos recentes. Entretanto, com filmes muito marcados por histórias de vingança, nada prepararia o público para a mistura temática e de abordagem que Na Hong-jin apresentaria em O Lamento.
Quando um assassinato brutal acontece em uma pacata vila rural do condado de Gokseong, Jong-goo (Kwak Do-won) é um dos policiais encarregados da investigação. Chegando ao local onde a vítima fora encontrada, vê seus colegas em pleno trabalho de averiguação e se depara com um homem algemado, em um estado deplorável: sua pele está arroxeada e repleta de erupções; seus olhos têm um aspecto leitoso e miram o vazio; ele está absolutamente inerte e não diz uma palavra. Outros moradores da pequena comunidade aparecem com os mesmos sintomas e são acometidos de uma loucura assassina que faz com que matem uns aos outros. Há boatos de que são cogumelos alucinógenos que têm provocado a doença, mas, por outro lado, as suspeitas também recaem sobre um estrangeiro recém-chegado do Japão, um idoso recluso (Jun Kunimura) que parte do povo da comunidade acredita ser uma entidade sobrenatural sugadora de sangue.
Jong-goo está frequentemente alheio ao que acontece à sua volta e conduz a investigação com desleixo. Chega sempre atrasado ao trabalho, o que piora quando passa a ter pesadelos com o velho eremita, sendo humilhado por seu superior diante de todos os seus colegas e civis. Junta-se esse vexame de homem bobalhão e atrapalhado a seu comportamento glutão e forma rotunda: estas são as características do herói que acompanharemos pelas próximas duas horas e meia. Além de ser considerado um profissional patético e vergonhoso pelo patrão, ouve reclamações da esposa sobre o seu desempenho insuficiente quando fazem sexo desajeitadamente dentro do carro, provavelmente pela falta de privacidade em seu próprio lar, compartilhado com a filha do casal e a sogra de Jong-goo. Nesse ponto também se estabelece a relação do protagonista com sua filha, Hyo-jin (Hwan-hee Kim), uma menininha muito mais esperta do que ele, mas que sucumbirá à suposta doença que tem infectado os residentes da comunidade. Esse é o ponto de virada para que o protagonista comece a agir com veemência, indo confrontar diretamente o velho japonês, em cuja casa encontra uma espécie de câmara ritualística, além de fotografias e pertences de todos que foram acometidos pela estranha infecção, entre os quais há um sapato de Hyo-jin.
As feridas abertas do horror social
O que começa como uma história de assassinato em série rapidamente se desenvolve para uma narrativa sobre bruxaria e mortos-vivos, tão labiríntica quando a estrada sinuosa que dá acesso ao remoto condado de Gokseong. Escrito e dirigido por Na Hong-jin, de O Caçador (2008) e Mar Sangrento (2010), o longa-metragem é o resultado de um trabalho sofisticado que transita o tempo inteiro entre o melodrama familiar, a comédia macabra e o terror satânico, além de se sustentar em uma base sensível de comentário social. A origem japonesa do velho eremita que desestabiliza aquela comunidade, provocando uma sensação generalizada de paranoia, não foi escolhida à toa. Seguindo uma tradição universal de explorar o gênero do horror como forma de falar de traumas sociais e expurgar medos coletivos, a força-motriz de O Lamento vem do sentimento de tensão e rancor entre a Coreia do Sul e o Japão, país que impôs um regime de terror entre os anos de 1910 e 1945, o período colonial japonês na península coreana. Naquela época, os homens eram obrigados a servir ao exército colonial japonês, enquanto algumas das mulheres foram escravizadas sexualmente. Estes conflitos geraram uma animosidade entre os países que perdura até hoje. Ainda que algumas iniciativas diplomáticas tenham sido tomadas, as feridas persistem em não cicatrizar e a maior parte da população sul-coreana ainda vê o Japão com grande desconfiança, e O Lamento é um reflexo desta relação.
Outra das questões centrais do filme, evidentemente, é a religiosidade. Com metade da população sul-coreana não tendo preferências religiosas definidas, o restante se divide principalmente entre cristãos e budistas. Em torno do protagonista há representantes budistas e católicos, além da figura do xamã e de um espírito benevolente, em contraponto com algo excessivamente diabólico, que pode ser desde um demônio poderoso até o próprio Diabo. O tempo todo o filme lança camadas e nuances em uma abundância de detalhes e reviravoltas que eventualmente podem escapar ao olhar ocidental, mas cuja mensagem central não se pode passar incólume: a falência do papel masculino como alicerce da família e da figura paterna como fonte de proteção das más influências estrangeiras.
Uma obra assombrosa e arrebatadora
Endossado pela boa repercussão do suspense O Caçador, filme que colocou Na Hong-jin no radar, O Lamento fez uma passagem arrebatadora por diversos eventos internacionais de cinema em 2016, entre eles o sempre prestigioso Festival de Cannes, onde foi exibido fora de competição, e naqueles voltados a produções de horror, fantasia e ficção científica, como o Fantasia, no Canadá; o MOTELx em Portugal; o Festival de Sitges, na Espanha; o Mórbido, no México; e em território doméstico, no BiFan, festival sul-coreano de cinema fantástico que acontece na cidade de Bucheon. Mas, afinal, qual é o encanto de O Lamento? O que faz dele tão arrebatador?
Em uma época como a que vivemos, com a produção e a popularização de vídeos cada vez mais curtos na web, um filme de horror com mais de duas horas e meia é praticamente uma aberração. Mais aberrante ainda é o fato de o filme em questão ser capaz de prender a atenção do espectador durante todos os segundos de metragem, sem jamais baixar o nível de interesse. Talvez fosse melhor perguntar: que bruxaria é essa? Brincadeiras à parte, é evidente que Na Hong-jin tem um amplo domínio do suspense, intercalando cenas de choque que só serão possíveis de ser compreendidas totalmente ao final da narrativa. Além disso, o cineasta compõe momentos de horror intenso que, mesmo que escapem às convenções da cinematografia clássica, como filmar cenas de medo à luz do dia, resultam em algumas das imagens mais assombrosas vistas nesta última década dentro deste gênero. O mérito é compartilhado com Kyung-pyo Hong, um dos diretores de fotografia mais requisitados no cinema sul-coreano da atualidade. Entre os seus trabalhos recentes estão Em Chamas (2018), de Chang-dong Lee, e Parasita (2019), de Bong Joon Ho, ambos celebrados como alguns dos melhores filmes da produção contemporânea. A montagem de Sun-min Kim, que traz no currículo filmes já clássicos como Memórias de um Assassino (2003) e O Hospedeiro (2006), é também um dos grandes trunfos de O Lamento, em que algumas das cenas-chave, como a dos rituais simultâneos, chegam a ter três ou quatro ações concomitantes em praticamente dez minutos de duração, sem jamais fazer com que a trama fique confusa ou incompreensível, ao mesmo tempo em que, efetivamente, o espectador fique desnorteado ao ser atraído ao centro daquela ciranda diabólica.
Como quem joga migalhas na trilha de uma densa floresta, Na Hong-jin espalha pistas ao decorrer do filme, dando sinais da tragédia que fora anunciada a muitas famílias e que todas elas ignoraram, concretizando a fatalidade que é típica do cinema fundamentado no melodrama. Jong-goo começa o filme como um bobo, protagonizando alguns momentos divertidos, transforma-se no decorrer da narrativa, mas falha como profissional, como pai e como homem. Assim como ele, somos manipulados, repetidamente enganados em uma espiral de erros, uma bola de neve de causas e consequências infelizes, conduzidos de maneira hipnótica pela tragédia infernal de um homem comum.
Texto escrito em novembro de 2021 para o livreto do lançamento em blu-ray pela Versátil Home Video.
