Veneno para as fadas: o conto de amadurecimento de Carlos Enrique Taboada

O México é um país com grande tradição no horror cinematográfico, tendo iniciado no gênero ainda nos anos 1930, muito antes de muitos outros países cuja produção de horror teve início três décadas mais tarde. Essa tradição garante um bom número de obras-primas e diversos realizadores que se destacam dentro do cinema fantástico, mas, dentre todos, é Carlos Enrique Taboada aquele que até hoje é reconhecido como o grande “maestro” do horror mexicano. Filho de atores, Taboada começou a trabalhar no cinema como roteirista, em meados dos anos 1950. O primeiro crédito de direção veio dez anos mais tarde, com o drama El Juicio de Arcadio (1965), e apenas três anos depois ele lançou o seu primeiro filme de horror, e provavelmente o seu maior clássico: Até o Vento Tem Medo (1968). Com elenco principal inteiramente feminino, esta história de inspiração gótica é ambientada em uma escola de garotas assombrada pelo espírito de uma estudante falecida. Aqui, Taboada já revela um pleno domínio da linguagem do horror, concebendo imagens de choque profundamente marcantes e conduzindo o mistério de maneira magistral. Logo no ano seguinte, em O Livro de Pedra (1969), Taboada explora questões sobre a infância com inspiração no conto A Vênus de Ille, de Prosper Mérimée, e provavelmente em Os Inocentes (1961), versão cinematográfica mais conhecida e celebrada da novela de Henry James, A Volta do Parafuso. No filme de Taboada, uma governanta precisa lidar com a estranha obsessão da menininha de quem ela cuida em relação a uma centenária estátua de jardim.

Um fato interessante sobre o diretor é sua preferência por narrar histórias de horror protagonizadas por mulheres em faixas etárias distintas e sempre com vieses e subgêneros diferentes. Depois de abordar o terror adolescente e passar pela infância, Taboada realiza uma de suas melhores obras, Mais Negro que a Noite (1975), sobre um grupo de mulheres jovens que começam a morar juntas em uma casa herdada por uma das moças, mas o local tem uma estranha presença e elas começam a morrer uma a uma. Uma mistura de suspense e sobrenatural sugerido, o filme aparenta uma provável influência dos gialli italianos, muito populares na primeira metade da década de 1970. Após realizar um filme grandioso sobre o conflito armado que aconteceu entre a Igreja Católica e o Estado Mexicano na segunda metade da década de 1920, A Guerra Santa (1979), o diretor parte para um projeto bem mais modesto e que seria sua última obra lançada nos cinemas – já que Jirón de Niebla, produzido em 1989, nunca chegou a estrear.

Veneno para as Fadas (1986) é a história de duas meninas, Veronica (Ana Patricia Rojo) e Flavia (Elsa Maria Gutiérrez), que apesar de frequentarem as mesmas aulas e saírem regularmente para brincar juntas, são muito diferentes entre si. Enquanto Flavia tem o apoio integral dos pais, sempre presentes, Veronica ficou órfã após perder os dela em um acidente de carro e é criada pela babá, cujas histórias narradas antes da menina dormir são sempre macabras e protagonizadas por bruxas. Fascinada pela ideia de poder das feiticeiras, que imagina ser sem limites, Veronica começa a interpretar esse papel diante de Flavia, que no início acha graça da encenação da amiga, mas fica completamente assustada quando a menina se dá conta de que o próximo passo da sua trajetória como bruxa é fazer um pacto com o Diabo.

Quando Taboada apresentou o projeto de Veneno para as Fadas, foi-lhe dito que esquecesse a ideia pois “aqui não temos nenhuma Shirley Temple”, em referência à dificuldade de se encontrar talentos dramáticos infantis, mas revelando também que a referência para personagens infantis em meados dos anos 1980 era a mesma de 50 anos antes, como se não houvesse espaço para narrativas mais maduras sobre a infância. Mas havia, e o diretor insistiu no projeto. Através de uma chamada de elenco com centenas de meninas, encontrou as protagonistas ideais para a sua história: Elsa Maria Gutiérrez, no papel da criança ingênua e assustada, e Ana Patricia Rojo, que surpreende com as nuances em sua interpretação, ora farsesca, ora manipuladora, até que, em um final dramático e arrebatador, pela primeira vez revela uma nuance de inocência.

O longa-metragem de Taboada é inusitado e ousado ao mostrar em quadro, em toda a metragem, apenas as duas meninas, com os adultos aparecendo apenas em partes: um braço, as costas, as pernas, entre outras maneiras, mas sempre deixando muito evidente de que aquela história é das duas crianças e os adultos estão ali como meros acessórios para a interação entre elas. Os únicos momentos em que vemos os rostos de alguns atores mais velhos são em momentos chocantes e de puro terror, como quando Flavia encontra o cadáver de sua professora de piano ou quando ela acaba se deparando com o rosto assustador da avó de Veronica ao cair em uma armadilha preparada pela amiga.

Um dos aspectos mais interessantes em Veneno para as Fadas é justamente como o diretor trafega por essa expectativa da inocência infantil e como ela é quebrada. Ainda que Veronica aparente ser justamente a antítese do que imaginamos ser uma criança inocente, ela também parece imersa em sua fantasia; há um quê de jogo, de lúdico em suas ações. Já Flavia, que se apresenta a nós como um modelo de criança ideal, de moral incorruptível, cede ao desejo imoral de encomendar para Veronica a morte de sua professora de piano simplesmente porque está entediada em comparecer às aulas, o que tragicamente se confirma em uma coincidência: de acordo com a mãe da menina, a mulher já tinha uma certa idade e fumava muito. Durante todo o filme o mestre Taboada joga com essas sutilezas e surpreende ao mostrar ao final que a inocência pode matar.

A personagem de Veronica é como se fosse uma extensão da menininha Silvia, a protagonista de O Livro de Pedra. Ambas flertam com a maldade e planejam prejudicar os outros por meio da magia. Porém, enquanto Silvia parece estar lidando de fato com uma entidade sobrenatural, as decisões de Veronica parecem mais cínicas e deliberadas. Aqui, as possibilidades do sobrenatural são imediatamente refutadas. Desde o início, é mostrado que a educação de Flavia tem base em um certo ceticismo, livre de crenças e com um certo desprezo a tradições religiosas, como rezar ao deitar e celebrar datas do calendário cristão, como o Natal. Ao perguntar ao seu pai sobre a existência de bruxas, ele responde que a crença nelas está associada puramente à ignorância.

Quando Flavia encontra a professora morta, é possivelmente o único plano em que vemos somente os seus pés em quadro. Seguindo a lógica estilística de Taboada, que decidiu mostrar os rostos apenas das crianças, vemos aqui a menina como adulta e sabemos a seguir que o trauma de testemunhar a professora morta vai perturbá-la por algum tempo, em seus sonhos. Seria possível, portanto, interpretar essa cena como um rito de passagem? Flavia está finalmente amadurecendo e em breve seu rosto sairia de quadro, restando apenas seus braços, costas ou pernas. Essa cena, acredito, dá a deixa para a sequência final, em que, definitivamente, ela está transformada ao assistir com indiferença a morte de sua amiga no celeiro. Seria essa uma forma de afirmar que Flavia alcançou a maturidade? Como fazem os melhores filmes, Veneno para as Fadas oferece muitas questões. Sob uma fantasia de simples filme de horror sobre brincadeiras infantis, aborda de maneira complexa e fascinante um dos temas mais interessantes de todos: a dolorosa e incompreensível passagem da infância para a vida adulta.

Texto escrito em junho de 2022 para o livreto Obras-Primas do Terror lançado pela Versátil Home Video.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *