É sempre interessante quando voltamos o olhar para o início da trajetória de alguns autores, principalmente daqueles que surgiram em meados dos anos 1960, período em que muitas cinematografias mundo afora precisaram se reerguer depois das sequelas devastadoras da Segunda Guerra Mundial. Foi também neste momento em que alguns focos de produção cinematográfica até então eram incipientes começam, de fato, a desabrochar. É o caso de David Cronenberg, hoje reconhecido como um dos cineastas canadenses de maior aclamação internacional e como o gênio do “horror corporal”.
“Se sobrevivi a Scanners, sobrevivo a qualquer coisa”
Cronenberg iniciou a carreira cinematográfica em 1966 com experimentações em filmes underground que já traziam alguns dos temas aos quais voltaria no futuro, como a psicologia, a medicina, a sexualidade, a tecnologia e as transformações do corpo. Apesar da experiência positiva com estes filmes no circuito de festivais, o diretor percebeu que precisaria ceder a um formato mais tradicional para continuar vivendo de cinema, mas o caminho até o sucesso não seria sem percalços. Juntamente de John Dunning e André Link, sócios da produtora de filmes de erotismo softcore Cinépix, Cronenberg conseguiu levar adiante seus primeiros projetos mainstream: Calafrios (Shivers, 1975) e Enraivecida, na fúria do sexo (Rabid, 1977). Ainda que fossem a princípio considerados de “mau gosto” por abordarem temas como sexo depravado e doenças venéreas por um viés de horror e espetáculo, os filmes obtiveram um retorno de bilheteria extremamente satisfatório, o que era desejável para o sistema de fomento ao cinema através de incentivos fiscais praticado pelo governo canadense naquela época. Esse estigma de cineasta de exploração o perseguiria por alguns anos, mas, graças aos programas estatais de incentivo, Cronenberg conseguiu tirar do papel mais quatro longas-metragens com orçamentos um pouco maiores, o que implicou, inclusive, em elencos melhores e mais conhecidos. São os filmes: Escuderia do poder (Fast Company, 1979), Os filhos do medo (The Brood, 1979), Scanners: sua mente pode destruir (Scanners, 1981) e Videodrome: a síndrome do vídeo (Videodrome, 1983). Todos eles representam, em maior ou menor medida, um degrau para o destino de muitos realizadores canadenses, que é se integrar ao mercado hollywoodiano.
Scanners é constantemente mencionado por Cronenberg como o filme mais difícil de toda a sua carreira. Os produtores Pierre David e Victor Solnicki, com quem o cineasta trabalhara em Os filhos do medo, o abordaram perguntando se ele tinha alguma ideia que pudesse ser desenvolvida rapidamente. Cronenberg confirmou ter um argumento em desenvolvimento, mas as filmagens precisavam começar imediatamente, no máximo em duas semanas. O resultado disso foi uma equipe despreparada em pleno set, pois enquanto os outros saíam para almoçar, Cronenberg permanecia lá, escrevendo as cenas que filmariam naquele mesmo dia, no período da tarde. Muitas vezes era necessário filmar cenas que dessem sentido às que haviam sido gravadas antes, mas que por algum motivo não tinham funcionado bem, e bastante coisa precisou ser acrescentada na fase de montagem do longa-metragem, como diálogos off screen. Apesar das dificuldades (e dos traumas) de produção, o filme teve um excelente desempenho na América do Norte, ocupando o primeiro lugar na bilheteria e hoje ostenta o merecido status de culto, tendo sido sucedido por duas sequências, Scanners II: A força do poder (Scanners II: The New Order, 1991) e Scanners III: O duelo final (Scanners III: The Takeover, 1991) e dois spin-off lançados diretamente em vídeo: Scanner Cop, o destruidor de mentes (Scanner Cop, 1994) e Scanner Cop II (1995).
Scanners ou estas incríveis “curiosidades telepáticas”
Em um mundo com 4 bilhões de habitantes, 237 deles são scanners. Frequentemente descritos com desprezo – como “patéticos”, “desconfiados”, “desajustados” e “curiosidades telepáticas” –, os scanners são pessoas aparentemente comuns, mas que possuem a capacidade de “escanear” mentes, ou seja, de se comunicar com outras pessoas através de telepatia. Mas nem sempre essa comunicação se estabelece de maneira tranquila; pelo contrário, por não conseguirem lidar de maneira efetiva com as vozes e os ruídos que predominam em suas próprias mentes, os scanners acabam apresentando um comportamento agressivo, tornando-se perigosos para o restante da população. Isso porque, ao escanear alguém, um deles pode provocar reações que vão de sangramento nasal a dores e, em casos mais extremos, explosões de cabeça. Vistos como seres extremamente perigosos, os scanners não conseguem se inserir na sociedade, sendo excluídos e passando a viver à margem dela. São também um desafio para a ciência, que os vê como aberrações da natureza com percepções extrassensoriais. A única coisa que pode controlá-los é um fármaco chamado Ephemerol, que cessa a agressividade e os poderes telepáticos dos scanners.
Na cena inicial, Cameron Vale (Stephen Lack), um homem sujo e malvestido perambula pela praça de alimentação de um shopping center. Ele circula pelas mesas procurando por restos de comida nas bandejas abandonadas pelos clientes. Em uma mesa próxima, uma mulher conversa com outra sobre ele, olhando-o com desprezo e fazendo comentários maldosos. Ao notar que está sendo observado e julgado, o homem começa a “escanear” a mulher, que logo cai no chão devido à dor e se debate com o corpo convulsionando. Dois homens observam o incidente e começam a perseguir o responsável, que tenta de todas as maneiras escapar, mas acaba sendo atingido com um tranquilizante e é capturado.
Chama a atenção o fato de a sequência ser silenciosa, com diálogos mínimos, o que fica ainda mais evidente na cena de perseguição, quando a trilha sonora eletrônica domina, representando a confusão mental do scanner. Assinada por Howard Shore, esta foi a segunda colaboração da longeva parceria entre Cronenberg e o compositor, cujo início se deu com Os filhos do medo (The Brood, 1979). A partir daí, Shore compôs as trilhas de todos os longas seguintes de Cronenberg, exceto Na hora da zona morta (The Dead Zone, 1983), cuja trilha foi composta por Michael Kamen. Ainda que tenha momentos mais convencionais, em geral a música de Scanners é abstrata, experimental, perturbadora. Aliada ao desenho de som, em muitos momentos assume uma função primordialmente narrativa, preenchendo alguns espaços vazios e gerando efeitos interessantes, como na sequência em que o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) revela ao recém capturado Vale que ele é um scanner. Preso a uma cama, Vale vê a sala cada vez mais cheia de pessoas e se incomoda com o burburinho que elas estariam fazendo, sendo que, na verdade, esses ruídos e vozes tão incômodas e invasivas estão apenas em sua mente. A música-tema do filme também é digna de destaque: intensa e cadenciada, parece ter sido inspirada em “Dies Irae”, melodia do século XIII muito usada na liturgia católica e cujo uso mais popular no cinema foi com o tema de O iluminado (The Shining, 1980), em versão de Wendy Carlos e Rachel Elkind. Em Scanners, o tema oferece a carga dramática necessária para pontuar o tom da história, que se mantém grave até o final.
A cena seguinte se passa no auditório da ConsSec, uma gigante da segurança particular que pretende implementar um projeto que usa scanners. Para isso, a empresa organiza uma demonstração pública para que as pessoas testemunhem um processo de escaneamento ao vivo. Darryl Revok (Michael Ironside), um homem da plateia, se oferece como voluntário para a demonstração, mas, ao invés de ser escaneado, é ele quem escaneia. Revok é um scanner extremamente poderoso e protagoniza aqui a cena mais icônica do filme, da cabeça que explode – é interessante observar que, ao optar por inserir a cena mais chocante do filme aos doze minutos de metragem, Cronenberg não apenas passa a ideia do tamanho do perigo que o antagonista representa, mas também dá conta da necessidade de haver outras cenas de choque deste mesmo nível. Revok faz isso como forma de sabotar o evento da empresa, pois ele mesmo tem intenção de usar os scanners em seu próprio benefício. A partir daí, a ConsSec convence Vale, que tem se revelado um scanner cordial com humanos comuns por ter livre acesso a doses de Ephemerol, a se infiltrar na organização de Revok a fim de revidar o ataque e reestabelecer a honra da empresa.

Do elenco de Scanners, Stephen Lack, que interpreta o protagonista Vale, é provavelmente quem apresenta a performance menos notável. Aparentemente, o fator decisivo para que o ator ficasse com o papel foi a cor dos seus olhos, um verde marcante que tem importância para a compreensão da enigmática cena final. Contudo, o filme permanece muito bem amparado por Michael Ironside no papel do apavorante antagonista Revok; por Patrick McGoohan, em uma intensa performance como o Dr. Ruth; a brasileira Jennifer O’Neill, o principal nome do elenco, no papel da encantadora Kim Obrist; e até mesmo o coadjuvante Robert A. Silverman, ator cronenberguiano associado principalmente à fase canadense, que aqui interpreta o excêntrico scanner Benjamin Pierce, que teria encontrado a cura pela arte, e com quem Lack contracena em uma das cenas mais simbólicas do filme, quando os dois conversam enquanto andam pelo ateliê de Pierce até chegarem à escultura de uma gigantesca cabeça, o que remete ao estado dos scanners de sentirem como se pessoas habitassem sua mente. Uma cena sutil, elegante e com um genial trabalho de blocagem.Apesar das agruras da filmagem, que certamente foram uma experiência importante de aprendizado, Scanners marcou época e é um dos filmes mais instigantes de David Cronenberg, definitivo para o desenvolvimento de seu estilo como diretor-autor. Além de explorar o tema da indústria farmacêutica e as relações entre o homem e a máquina, o filme joga com a sempre pertinente dicotomia entre o bem e o mal, e como Vale e Revok são os dois lados dessa moeda. Mas, no fim das contas, é possível ser apenas um?
Texto escrito em junho de 2021 para o livreto do lançamento em blu-ray pela Versátil Home Video.
