A infância eterna de Eli: vampirismo e o drama da existência em Deixa ela entrar

O vampiro, monstro mais revisitado da ficção de horror, embora seja matéria-prima para inesgotáveis reflexões sociais e existenciais, poucas vezes foi retratado como criança no cinema, e raramente de maneira que não fosse cômica. A própria presença da criança em filmes dramáticos só se tornou comum a partir das novas ondas, na segunda metade do século XX. A produção sueca Deixa ela entrar (Låt den rätte komma in), lançada em 2008, oriunda de um país com pouca tradição no gênero, uniu esses elementos em um horror dramático sobre uma criança vampira, obra que repercutiu mundialmente e se tornou um dos filmes suecos mais populares deste século.

A criança no cinema, das novas ondas ao horror

Durante muitas décadas, as crianças foram párias dentro do cinema dito “sério” ou “relevante”. A figura da criança inocente e divertida, consagrada principalmente por Shirley Temple e seus cachinhos dourados, permaneceu por muito tempo no imaginário coletivo como a representação infantil ideal. Ainda que seja inegável o valor de entretenimento destes filmes, esse tipo de caricatura não oferece qualquer complexidade para as personagens e sugere uma espécie de anseio comum sobre como devem ser as nossas crianças: inocentes e divertidas. Desse modo, qualquer ponto de vista desviante é passível de ser observado como um tabu.

Foi com o surgimento do cinema moderno que as crianças tiveram a oportunidade de ter suas histórias contadas de outra maneira. No neorrealista Alemanha, ano zero (Germania anno zero, 1948), de Roberto Rossellini, um menino perambula pela Berlim destruída após a Segunda Guerra Mundial. A criança, comumente vista como símbolo de esperança no futuro, tem aqui um desfecho profundamente pessimista. Outros filmes com essa abordagem da guerra vista pelo olhar da criança surgiriam anos mais tarde: A infância de Ivan (Ivanovo detstvo, 1962), de Andrei Tarkóvski; Vá e veja (Idi i smotri, 1985), de Elem Klimov; Esperança e glória (Hope and Glory, 1987), de John Boorman, entre outros; mas foi com o surgimento das novas ondas que a criança passou a protagonizar narrativas mais plurais. François Truffaut desempenhou como crítico e realizador um importante papel na discussão da representação da infância. Eventualmente, publicava na revista Cahiers du Cinéma textos que refletiam sobre a forma como as personagens infantis eram representadas na ficção, mas também chamando a atenção para os direitos das crianças que atuam em cinema. Seu primeiro longa-metragem, Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959), é um marco não apenas da Nouvelle Vague, mas também de um olhar honesto e reverente em relação às questões infantis.

O amplo desenvolvimento das cinematografias ao redor do mundo trouxe diversas obras marcantes sobre o tema da infância, como A canção da estrada (Pather Panchali, 1955), do indiano Satyajit Ray; Bom dia (Ohayô, 1959), do japonês Yasujirô Ozu; Kes (1969), do britânico Ken Loach; Alice nas cidades (Alice in den Städten, 1974), do alemão Wim Wenders; Cria corvos (Cría cuervos, 1976), do espanhol Carlos Saura, e Onde fica a casa do meu amigo? (Khane-ye doust kodjast?, 1987), do iraniano Abbas Kiarostami, que acabaria consagrando o drama infantil como uma especialidade do cinema feito em seu país.

A presença de crianças em filmes de horror a princípio era vista como algo inusitado. Por ser um gênero que lida basicamente com a morte e ser em grande parte maniqueísta, muitas vezes coloca em xeque uma velha discussão moral: pode uma criança matar, ou… quem poderia matar uma criança? Em 1955, Charles Laughton estreou seu primeiro e único filme como diretor, a obra-prima O mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter), uma espécie de conto de fadas macabro imerso em uma aura de pureza, sobre um falso pastor religioso que persegue duas crianças pequenas, pois deseja algo que está dentro da boneca que a menina leva consigo. Em 1956, Mervyn LeRoy lançou A tara maldita (The Bad Seed), sobre uma menininha doce e bem-educada que se torna a principal suspeita de ter assassinado um de seus colegas da escola. O filme se tornou um clássico e, apesar do pioneirismo na abordagem do tema, o desfecho é um tanto convencional. Já Os inocentes (The innocents, 1961), de Jack Clayton, explora a temática da inocência infantil de maneira instigante. Além de ter sido adaptado do livro A volta do parafuso (The Turn of the Screw, 1898), de Henry James, teve como base um estudo psicanalítico sobre a obra do autor americano (naturalizado britânico), o que lhe agregou uma maior complexidade às personagens e camadas de profundidade às relações entre elas.

Ainda que a presença de crianças em narrativas de vampiro não seja tão frequente, suas personagens costumam ser fascinantes, já que na mitologia canônica estas criaturas não envelhecem. Quando uma criança se torna vampira, permanecerá eternamente em um corpo infantil, ainda que some centenas de anos de existência. Essa era a angústia de Claudia, a personagem de Kirsten Dunst em Entrevista com o vampiro (Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles, 1994), longa-metragem de Neil Jordan baseado na obra homônima e mais famosa da autora Anne Rice. Em Deixa ela entrar essa situação novamente é sugerida, em que o próprio comportamento misterioso da protagonista envolve em dúvidas sua origem e a complexidade de seu ser. 

A vampira que veio do frio

Quando fez Deixa ela entrar, em 2008, o cineasta sueco Tomas Alfredson vinha de uma carreira de vinte anos dirigindo dramas, romances e, principalmente, comédias. Mesmo com todo o sucesso do filme, o mais próximo que voltou a se aproximar do horror foi com o thriller policial Boneco de Neve, co-produção estrelada por Michael Fassbender. O próprio gênero é esporádico no cinema sueco, embora tenha na filmografia do país uma das obras embrionárias do horror cinematográfico: o melodrama sobrenatural A carruagem fantasma (Körkarlen, 1921), de Victor Sjöström, cineasta que foi uma figura influente e determinante para a formação artística de seu compatriota Ingmar Berman. Exceto por incursões do próprio Bergman, como A hora do lobo (Vargtimmen, 1968) e outras de suas obras que, de alguma forma, se aproximam da narrativa do horror, a exemplo de O sétimo selo (Det sjunde inseglet, 1957) e A fonte da donzela (Jungfrukällan, 1960), o cinema sueco nunca cultivou uma tradição dentro do gênero.

Surgido nesse contexto cultural improvável, Deixa ela entrar disputa seriamente o posto de filme de horror mais popular da Suécia. Alfredson, mesmo experimentando o gênero pela primeira vez, demonstra segurança e versatilidade na condução do filme, que se destaca em meio às narrativas mais convencionais de vampiro pela banalidade com a qual escolheu retratar o mundo diegético, à maneira de outras grandes obras do tema, como Ganja & Hess (1973), de Bill Gunn, e Martin (1977), de George Romero.

A primeira imagem de Deixa ela entrar é a neve caindo vagarosamente do céu. Em seguida, o pequeno Oskar (Kåre Hedebrant) aparece no reflexo da janela. Superfícies que refletem imagens, como vidros e espelhos, aparecem com frequência dentro do filme, sugerindo desde o início uma dicotomia que permeia toda a narrativa, entre elas o cuidado de uma amizade sincera e a violência destruidora do bullying, questões de identidade de gênero e de maniqueísmo. Oskar, um menino solitário, mora com a mãe em um conjunto de apartamentos no subúrbio de Estocolmo. Pela janela de seu quarto, ele observa a chegada de sua nova vizinha, Eli (Lina Leandersson), uma menina que, como ele, aparenta ter cerca de 12 anos de idade. Ela vem acompanhada de um homem mais velho para viver em um apartamento ao lado do seu. Com o passar das noites, os dois se encontram no parquinho do prédio e iniciam uma amizade que mudará para sempre a vida de Oskar. Eli é, na verdade, uma vampira e, ainda que nada seja dito de maneira explícita, o menino percebe desde o início que ela é diferente das outras crianças: ela não sente frio mesmo na neve, nem frequenta a escola.

De início, a relação entre Eli e seu acompanhante Håkan (Per Ragnar) causa um bocado de estranhamento, pois aparentemente é um homem muito mais velho do que a menina, mas evidentemente subordinado a ela. Pela forma como conversam, entendemos que Håkan não é seu pai, e sim um servo que viaja com a criança de cidade em cidade, matando pessoas para que Eli não precise se expor pelas ruas. Logo o homem vai a um bosque em busca da próxima vítima, de quem irá extrair o sangue para que Eli possa se alimentar. Sem o glamour dos castelos, sem o charme do vampiro aristocrático, sem que a vítima possa reagir e lutar: Håkan dependura o homem em uma árvore e, como quem sangra um animal para o abate, corta sua garganta e despeja o líquido vital em um galão de gasolina. A “banalidade” da mise-en-scène é, ao mesmo tempo, desconcertante e envolvente. A trilha sonora, composta por Johan Söderqvist, é suave e nada invasiva, deixando espaço para os momentos de silêncio que são bastante valorizados neste filme. São raros os diálogos necessários para a compreensão da narrativa; na maior parte das vezes exercem uma função mais poética.

O filme é adaptado do romance homônimo, o primeiro escrito por John Ajvide Lindqvist, que se tornou um prolífico autor de histórias de horror e que também se encarrega do roteiro do filme. Lindqvist costuma lançar um olhar humanizado para as figuras monstruosas, de certa forma defendendo que a monstruosidade não precisa necessariamente se limitar a uma abordagem simplista de bem e mal. Também é dele o conto que serviu de base para o roteiro de Border (Gräns, 2018), de Ali Abbasi, fantasia obscura que mostra a relação romântica entre duas criaturas meio-humanas, meio-monstros. Em Deixa ela entrar, o autor faz uma abordagem comovente do vampirismo, que é retratado como uma doença viral e incurável. Quando uma das vítimas de Eli se transforma, passa a vivenciar um transtorno e escolhe ser queimada pelo sol na cama do hospital onde está internada. A cena é absolutamente chocante e aterradora. Talvez seja por conviver com o peso dessa angústia que Eli se identifique tanto com Oskar, um menino fragilizado que vive sendo perseguido e aterrorizado pelos valentões da escola. Além disso, há a questão a respeito da indefinição da identidade de gênero de Eli, abordada de maneira explícita no livro e de forma vaga no filme. Esse aspecto dissidente, de não se compreender como alguém amplamente aceito na sociedade por um desvio físico ou moral, é uma das características mais fascinantes dos monstros.

Um dos grandes trunfos do filme é se propor a olhar de maneira respeitosa para a infância, mesmo que somado ao elemento de fantasia, valorizando o peso de suas questões como seres humanos, ainda que vistos de cima possam parecer problemas insignificantes. É interessante pensar no contraste entre o branco da neve e o vermelho do sangue das vítimas de Eli, da frieza e do calor vital. A narrativa explora de maneira complexa as muitas possibilidades desse embate dramático e existencialista, e o poético desfecho em aberto de Deixa ela entrar sugere muitas possibilidades futuras, entre elas uma nova relação de cumplicidade, submissão voluntária, cuidado mútuo e interdependência.

Texto escrito em janeiro de 2021 para o livreto do lançamento em blu-ray pela Versátil Home Video.

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